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Malária, falta de infraestrutura e preconceito: a dura da chegada das primeiras famílias japonesas a MT
Publicado em: 19/06/2019 ás 16:18:00 Autor: Olhar Direto
Fonte: Olhar Conceito

Quando Tadashi Okamura construiu um poço na casa onde viviam sua esposa e seus oito filhos, no ‘Porto’, os vizinhos logo vieram preocupados perguntar por que a família queria voltar para o Japão. Essa era uma das únicas ideias que os cuiabanos tinham sobre eles na década de 60 – a de que vinham de baixo da terra. A outra certeza era que eram bons lutadores. Jaime Okamura, um dos filhos mais novos da família, não era nem uma coisa nem outra, e guarda na memória as agruras de ter sido um dos primeiros a chegar nas bandas de cá, após a abertura de caminhos feita por seu pai, agrimensor, e a família de Iassutaro Matsubara, grande amigo de Getúlio Vargas que ajudou a colonizar a Gleba Rio Ferro, no nortão de Mato Grosso, onde hoje está a cidade de Feliz Natal. Se a malária, a falta de infraestrutura e o suicídio de Getúlio frearam, por um lado, a prosperidade daquelas terras, a colônia, ao menos, se manteve unida na capital do estado – onde muitos vivem até hoje.


Iassutaro foi o primeiro japonês a vir para Mato Grosso. Natural da província de Wakayama, ele se tornou fazendeiro em Marília, no interior de São Paulo, e era muito próximo do então presidente Getúlio Vargas. “Ele era marinheiro. E na época que morava no Japão ele olhou o mapa mundi e apontou o Brasil. O Japão era menor, era um país pobre, e ele queria um futuro melhor para si. Ele apontou o Brasil e falou assim: eu vou para este país aqui. E veio com os imigrantes”, lembra Yuco Matsubara, nora de Iassutaro, que vive até hoje em Cuiabá – e por aqui é conhecida como Adair.

 



Yuco [Adair] Matsubara, nora de Iassutaro (Foto: Rogério Florentino / Olhar Direto)

O primeiro navio de imigrantes japoneses chegara ao Brasil em 18 de junho de 1908. A data foi instituída como o 'Dia da Imigração Japonesa', e, nesta terça-feira (18), são lembrados e comemorados seus 111 anos. 

Mas Mato Grosso conheceria os imigrantes somente anos depois. Foi a partir de um acordo com Getúlio, que queria ocupar as regiões centrais do país, que Iassutaro veio para estado. Yuco conta que seu sogro foi recebido pelo então governador Fernando Correa da Costa, e sobrevoou a área, ficando encantado a mata. Como as terras ficavam a 400 quilômetros de Cuiabá, foram necessários ainda três anos de viagem para abrir os caminhos – já que não havia estradas.

 



Getúlio (Esq.) e Iassutaro firmando acordo sobre a colonização de Mato Grosso (Foto: Rogério Florentino / Olhar Direto sobre Arquivo Pessoal)

A empresa colonizadora Rio Ferro foi fundada em 1952. Iassutaro, no ano seguinte, já conseguiu trazer as primeiras famílias de origem nipônica, do interior de São Paulo e do Paraná, com a promessa de prosperidade. Em 1954, com o suicídio de Getúlio e a chegada de outro grupo político ao poder, o dinheiro se tornou escasso, e as dificuldades aumentaram na Gleba. Vítima de um derrame, o pioneiro quis voltar para sua terra natal, e deixou a colônia nas mãos de seu filho Iosihua, conhecido como ‘Paulo’.

 



Paulo assumiu, então, o comando das terras. Ali, foram construídas escolas, escritórios, farmácia e até mesmo pista de aviação. No início, as famílias plantavam pimenta do reino e seringal. “Da pimenta do reino eles colheram até toneladas, mas não era de interesse do governo federal, porque compravam muito barato de fora e não era algo de primeira necessidade. Então era só sacrifício”, lamenta dona Adair.

Escola em Rio Ferro (Foto: Rogério Florentino Pereira sobre Arquivo Pessoal)

As dificuldades são lembradas também por Jaime. Seu pai, que viera do Japão para Marília, e já havia feito o levantamento topográfico na cidade de Assai, no Paraná, foi contratado por Iassutaro para fazer o mesmo nas terras ao norte de Mato Grosso. A primeira viagem do agrimensor para a Gleba Rio Ferro foi no início da década de 50, e em 54 trouxe toda a família.

 



Família de Jaime. Ao centro, a mãe Kaneyo e o pai, Tadashi (Foto: Arquivo Pessoal)

Depois de fazer o levantamento, Tadashi se tornou gerente da Gleba. Ele representava os donos, tinha poder de polícia, era administrador, e até cortava cabelos. Quando trouxe a família, os instalou em Cuiabá, para onde voltava pelo menos uma vez por ano – a frequência não era maior, dentre outros motivos, porque a viagem até a gleba demorava de 15 a 20 dias.

Todas as dificuldades fizeram com que os colonos começassem a desistir da ocupação daquele espaço. “Eles não tinham assistência, não tinham financiamento. As famílias tinham vendido tudo para vir. Cada uma comprou sua área, e a orientação era que fosse plantado seringueira. Mas a seringueira demora em torno de 15 a 20 anos para produzir a seringa... Além disso, teve malária, teve várias doenças. Papai teve leishmoniose. Era muito difícil para as famílias ficarem lá, e o pessoal foi desistindo”, conta Jaime.



Capem

Ao lado da Gleba Rio Ferro ficava outra colônia, chamada Cooperativa Agropecuária Extrativa Mariópolis Ltda. (CAPEM). Segundo Jaime, ali viviam os imigrantes oriundos de Okinawa – que, de certa forma, ‘não se misturavam’ com os outros japoneses. “Pode-se afirmar que a partir da década de 50 dois projetos se destacam na formação das duas primeiras colônias no norte do Estado de Mato Grosso, que foram para as áreas de terra das seguintes colônias: Gleba Rio Ferro e CAPEM (Cooperativa Agro-Pecuária Mariópolis – 1957-1960). Como foi antes da divisão do Estado, já havia também colônias na parte sul e um número expressivo de imigrantes nessa área”, confirma a historiadora Aldina Cássia Fernandes da Silva, 53.

Aldina Cássia (Foto: Arquivo Pessoal)

Aldina é doutora em história social pela Universidade Federal do Paraná (UFPR), e desde a graduação estuda a imigração japonesa no Brasil e, mais especificamente, em Mato Grosso. Seu interesse surgiu por meio de uma exposição de fotos. “Nas fotografias havia homens, mulheres e crianças em diversas situações em Mato Grosso: chegando em caminhões, na abertura das matas, nos rios, nas casas construídas, no desmate, no cultivo do solo, entre outras mais. Inúmeras indagações surgiram. As informações foram levantadas por meio da oralidade e das fotografias. O diálogo entre as imagens, relatos e fontes bibliográficas possibilitou a elaboração e a apresentação do trabalho, realizadas por meio de uma exposição fotográfica montada na Universidade”, lembra. Sua pesquisa de mestrado foi sobre a “Gleba Rio Ferro: 1950-1965”. Já no doutorado, focou em compreender as questões que envolveram a imigração de japoneses de Okinawa após a Segunda Guerra Mundial.

Chegada dos colonos (Foto: Rogério Florentino sobre Arquivo Pessoal)

 



A guerra é lembrança comum entre os imigrantes. Iassutaro era da marinha, e seu filho Paulo só não lutou porque foi reprovado no exame de vista. Tadashi não chegou a ir para a batalha, mas Jaime se lembra da fama de ‘traiçoeiros’ que os japoneses ganharam após o ataque a Pearl Harbor. Foi depois da guerra, também, que Iassutaro conseguiu – por meio de sua amizade com Getúlio – ajudar na vinda de outras famílias, mesmo depois que os ‘portões’ já estavam fechados, o que lhe fez ganhar reconhecimento na província de onde viera. 

“Após a Segunda Guerra Mundial, o fluxo imigratório de japoneses para o Brasil só foi reestabelecido em 1951, com a assinatura do Tratado de São Francisco. No mesmo ano foi retomada a negociação para a entrada de cinquenta imigrantes de Okinawa”, conta Aldina Cássia. “Em 1952, com o financiamento de particulares, ocorreu a ‘imigração sob chamado’, ou seja, por cartas de chamada enviadas pelos parentes estabelecidos no Brasil, [o que] aumentou a entrada de okinawanos. O ápice do fluxo migratório desse grupo ocorreu entre 1957 e 1960 e, posteriormente, foi diminuindo até os anos 70”.
 
A historiadora lembra que vários acontecimentos da época favoreceram o novo fluxo migratório, dentre eles a ‘Batalha de Okinawa,’ durante a Segunda Guerra Mundial, que trouxe escassez de terras agrícolas provocadas pela concentração de bases militares, e o retorno de inúmeras pessoas dos territórios ocupados pelo governo japonês antes de 1945. Como consequência dessa situação, instalou-se grande crise econômica em Okinawa.
 
Vida em Cuiabá

O sonho das glebas, principalmente a Rio Ferro, mostrou-se não tão próspero para grande parte das cerca de 50 famílias que vieram. Depois disso, a maior parte delas desistiu e se mudou para a capital, onde já estavam suas esposas e filhos. Em Cuiabá - na época com apenas 17 mil habitantes - os imigrantes se organizavam em uma associação para enfrentar o estranhamento dos cuiabanos, e aprender a lidar com os novos costumes.

Tadashi e Kaneyo Okamura, pais de Jaime, por exemplo, tiveram que se batizar, crismar e casar na Igreja Católica para que os filhos frequentassem escola de padre. O pai não era muito religioso, mas a mãe levou o sincretismo para toda a vida. “Ela ficou com a crença dividida. Eles cobravam que a gente fosse à missa aos domingos e ela tinha um oratório budista e católico. Dentro do oratório dela tinha uma Nossa Senhora Auxiliadora, tinha o Buda, tinha lembrança dos parentes que já tinham falecido... ela fazia todos os dias a reza, acendia o incenso, dava oferendas de comida no altar... ao mesmo tempo em que acendia uma vela para Nossa Senhora”, lembra.

 



Jaime Okamura (Foto: Rogério Florentino / Olhar Direto)

A primeira associação nipo-brasileira em Cuiabá surgiu com o objetivo de dar aulas de língua japonesa aos descendentes nascidos no Brasil. Na casa de Tadashi, os imigrantes se reuniam nas tardes de domingo, e depois passaram a formar clubes da terceira idade e também time de beisebol. “Por meu pai ter sido gerente da Gleba, acabava que a gente dava assistência às famílias que vinham. Até casamentos papai arrumava, porque naquela época ainda existia a ideia de que japonês só poderia se casar com japonês”, conta ele, que hoje é um dos grandes nomes do turismo mato-grossense.

Já nas décadas de 80 e 90, a união dos descendentes foi se perdendo. “Começou a vir outras pessoas de perfis diferentes, e aquela ideia de ficar agregado, de só poder casar japonês com japonês... chegou uma fase que a coisa mudou. Minha família, por exemplo, chegou aqui em 10 pessoas aqui, e hoje, se somar os agregados, já dá quase 200”. Foi um irmão de Jaime, inclusive, o primeiro a ‘quebrar’ a tradição e se casar com uma brasileira – não sem antes sofrer para conseguir a autorização do pai.

Da família de dona Adair, três filhos vieram para Cuiabá, e um deles continua na região da gleba até hoje, onde tem uma fazenda e planta soja, arroz, borracha e tem criação de gado. Os nomes de seu marido - que faleceu há 15 anos - e sogro, no entanto, são sempre lembrados. “Temos muito reconhecimento. No Nortão, toda festa importante eles nos convidam, mandam motorista me buscar, expõem essas fotografias... porque foi ele [Iassutaro] que começou. Nós podemos passar de cabeça erguida”, finaliza.

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